Mato Grosso perdeu neste domingo (16) uma das pesquisadoras que ajudaram a transformar o Pantanal em objeto de estudo científico no Brasil. A professora, ecóloga e pesquisadora Carolina Joana da Silva, de 75 anos, morreu em decorrência de câncer no fígado.
Mais do que uma professora universitária, Carolina construiu uma trajetória ligada diretamente à ciência produzida em Mato Grosso. Durante décadas, seu trabalho esteve relacionado ao estudo dos ecossistemas pantaneiros, das áreas úmidas, da biodiversidade e da relação entre comunidades e natureza.
A morte provocou repercussão na comunidade acadêmica e levou a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) a decretar luto oficial e suspender as atividades acadêmicas e administrativas nesta segunda-feira (17).
Quem foi Carolina Joana da Silva?
Carolina Joana da Silva atuava na Unemat desde os anos 2000, onde exerceu atividades como professora nos cursos de graduação e pós-graduação.
Ao longo da carreira, também ocupou o cargo de pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da universidade, posição na qual participou de uma fase importante da expansão da produção científica da instituição.
Um dos marcos desse período foi a implantação de programas de pós-graduação stricto sensu, incluindo o Mestrado em Ciências Ambientais, criado em 2005.
A atuação administrativa, porém, foi apenas uma parte de sua trajetória.
Foi principalmente como pesquisadora e formadora de novos cientistas que Carolina ganhou reconhecimento dentro e fora de Mato Grosso.
A pesquisadora que ajudou a estudar o Pantanal
O Pantanal foi um dos grandes centros de sua trajetória científica.
Carolina dedicou parte significativa de sua produção acadêmica à compreensão das áreas úmidas, dos ambientes naturais e das relações existentes entre biodiversidade e comunidades humanas.
Esse tipo de pesquisa é especialmente importante para Mato Grosso porque o estado abriga uma parcela fundamental do Pantanal brasileiro.
Estudar o bioma significa compreender não apenas animais e plantas, mas também os ciclos de água, as características das áreas alagáveis, os impactos das atividades humanas e a maneira como populações locais se relacionam com os recursos naturais.
Foi nesse universo que a pesquisadora construiu sua especialidade.
Por que a pesquisa de Carolina era importante para Mato Grosso?
Uma das características mais interessantes da trajetória de Carolina é que sua produção científica estava ligada a questões que fazem parte da realidade cotidiana de Mato Grosso.
O Pantanal não é apenas um destino turístico ou uma paisagem conhecida mundialmente.
É um ecossistema extremamente complexo, influenciado pelos ciclos de cheia e seca e conectado a outros ambientes naturais do estado.
Pesquisadores especializados em áreas úmidas ajudam a compreender como essas transformações acontecem e quais consequências podem surgir quando o equilíbrio ambiental é alterado.
A atuação de Carolina também envolvia a etnobiologia, área que estuda a relação entre seres humanos, culturas e biodiversidade.
Esse olhar permite compreender como comunidades tradicionais e populações locais utilizam, conhecem e interpretam o ambiente onde vivem.
Uma carreira que ultrapassou a sala de aula
Ao longo de sua trajetória, Carolina não ficou restrita às atividades de ensino.
Ela participou da formação de pesquisadores e continuou atuando em programas de pós-graduação.
Até o fim da carreira, era professora e orientadora em programas de pós-graduação da Unemat e da Rede Bionorte, contribuindo para a formação de novos profissionais ligados à ciência e ao meio ambiente.
Ela também presidia o Conselho da Reserva da Biosfera do Pantanal, reforçando sua atuação na discussão e preservação do bioma.
Esse conjunto de atividades ajuda a explicar por que sua morte é considerada uma perda importante para a ciência produzida em Mato Grosso.
Carolina também deixou uma marca dentro da Unemat
A contribuição da pesquisadora não se limitou às pesquisas sobre o Pantanal.
Durante o período em que ocupou a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Carolina participou do processo de fortalecimento da estrutura científica da universidade.
A criação do Mestrado em Ciências Ambientais, em 2005, é um dos exemplos dessa fase.
A expansão dos programas de pós-graduação representa um efeito que vai muito além da própria universidade.
Quando um programa desse tipo é criado, ele passa a formar mestres, pesquisadores e professores, além de estimular novas pesquisas e projetos científicos.
Em outras palavras, parte da influência de uma pesquisadora pode continuar aparecendo durante décadas por meio das pessoas que ela ajudou a formar.
Reconhecimento pela comunidade científica
A trajetória de Carolina Joana da Silva fez com que ela se tornasse uma referência em estudos relacionados ao Pantanal, às áreas úmidas e à biodiversidade.
A Unemat destacou, em nota de pesar, a contribuição da professora para a ciência e para a formação de pesquisadores em Mato Grosso.
A universidade também manifestou solidariedade aos familiares, amigos, colegas e alunos.
O reconhecimento à pesquisadora ocorre justamente em uma área considerada estratégica para o estado: a produção de conhecimento sobre seus próprios recursos naturais.
Velório e sepultamento
O velório de Carolina Joana da Silva ocorre em Cuiabá, na Capela Santa Rita, até as 16h deste domingo.
O sepultamento está previsto para ocorrer em Santo Antônio de Leverger, também neste domingo, a partir das 16h.
A morte ocorre em um momento em que as pesquisas sobre o Pantanal ganham cada vez mais importância diante dos desafios ambientais enfrentados pelo bioma.
Uma vida dedicada a entender o Pantanal
A trajetória de Carolina Joana da Silva ajuda a mostrar que a preservação do Pantanal não depende somente de ações de fiscalização ou de políticas públicas.
Existe também um trabalho silencioso realizado dentro de universidades e centros de pesquisa: observar, estudar, registrar e tentar compreender como funciona um dos maiores sistemas de áreas úmidas do planeta.
Foi nesse campo que Carolina construiu sua carreira.
Durante décadas, ela ensinou estudantes, orientou pesquisadores, participou da expansão da pós-graduação em Mato Grosso e produziu conhecimento sobre biodiversidade e áreas úmidas.
Por isso, sua morte representa uma perda que ultrapassa o ambiente universitário.
Para Mato Grosso, fica o legado de uma cientista que ajudou a transformar o Pantanal em conhecimento científico, formando pessoas que continuarão estudando e defendendo o bioma.
Aos 75 anos, Carolina Joana da Silva encerra uma trajetória marcada pela pesquisa, pela educação e pela dedicação à compreensão da natureza de Mato Grosso. O trabalho que deixou, porém, permanece justamente onde a ciência costuma produzir seus efeitos mais duradouros: nos pesquisadores que ajudou a formar e no conhecimento produzido sobre o Pantanal.
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