Escola que já foi curral emociona eleitores em Goiás

Em Águas Lindas de Goiás, antiga área rural abriga uma escola que transformou a vida de gerações e virou referência para a comunidade.

A Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira, em Águas Lindas de Goiás (GO), recebeu eleitores nas Eleições 2026 marcados por lembranças, gratidão e esperança. Construída em uma área que abrigava um curral de vacas, a unidade de ensino se tornou referência para moradores que estudaram no local e hoje retornam para exercer o direito ao voto.

Um dos primeiros a chegar foi Pedro Pereira, de 56 anos, que aguardava desde as 5h50 da manhã a abertura das salas, prevista para as 8h. Natural do Piauí, ele mora em Águas Lindas de Goiás e trabalha há 25 anos como porteiro em Brasília, a cerca de 50 quilômetros de distância, trajeto que pode levar duas horas de ônibus.

Pedro interrompeu os estudos ainda no quarto ano do ensino fundamental para ajudar a família no trabalho rural, em Campo Maior, no Piauí. Ele conta que se lembra pouco do que aprendeu na escola, mas que a experiência marcou sua trajetória e influenciou a educação dos seis filhos. Ao recordar a própria história, manifestou o desejo de que a escala de trabalho seis por um termine para que possa ter uma vida melhor.

Antes de se mudar para o Centro-Oeste em busca de oportunidades, Pedro vendeu uma cabra para pagar a passagem até Brasília. Também trabalhou como auxiliar de pedreiro. Ao voltar à escola para votar, encontrou um lugar que representa tanto sua história quanto as transformações vividas pela comunidade.

Escola começou em área rural

A história da unidade começou em 1992, quando a psicopedagoga Maria do Socorro Pereira, hoje com 69 anos, reuniu as primeiras 60 crianças, filhas de trabalhadores rurais, para oferecer aulas no local. A estrutura inicial era improvisada, com contêineres e outras adaptações, mas atendia a uma necessidade da população que não tinha acesso adequado à educação.

Maria do Socorro recorda que a escola foi instalada no espaço onde funcionava o curral das vacas de uma fazenda. Ela participou diretamente da implantação e ajudou a preparar o terreno para que as atividades educacionais pudessem começar. Atualmente, a instituição atende 1.350 alunos.

O primeiro nome da escola foi Ayrton Senna da Silva, escolhido por sugestão da professora após a morte do piloto, em 1994. Com a ampliação da oferta de ensino fundamental e médio, a unidade passou por mudanças. Hoje, o nome Ayrton Senna identifica um prédio destinado ao ensino médio, na mesma rua, enquanto a Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira atende à educação infantil e ao ensino fundamental.

Segundo Maria do Socorro, a existência da escola é resultado da mobilização dos moradores. Desde que Águas Lindas de Goiás se tornou município autônomo, em 1995, a participação social e política esteve entre os temas discutidos pela comunidade escolar, apesar das dificuldades de infraestrutura enfrentadas ao longo dos anos.

Eleitores relembram trajetórias

O agricultor Divino Evangelista dos Santos, de 53 anos, foi o segundo eleitor da fila naquela manhã. Ele estudou até o quarto ano e teve 11 filhos. Mesmo com as limitações da própria formação escolar, demonstra orgulho pelo fato de nenhum dos filhos ter abandonado os estudos. A chegada antecipada à escola também permitiu que ele cuidasse da roça durante o restante do dia.

Outro eleitor, o pedreiro Dorival Batista, de 62 anos, também se considera analfabeto. Natural de Rio do Sono, no Tocantins, ele vive em Águas Lindas de Goiás desde 2002 e espera ter mais tranquilidade quando chegar à aposentadoria.

Para quem passou a infância na instituição, retornar ao local também significa revisitar sonhos antigos. O advogado Adenilson dos Santos Filho, de 36 anos, lembrou do primeiro dia de aula, quando tinha sete anos. Ele contou que, no início, frequentava a escola principalmente por causa da merenda, mas reconheceu a importância das professoras que insistiam para que os alunos continuassem estudando.

Filho de caminhoneiro e de professora primária, Adenilson afirma que desenvolveu um senso de justiça e esperança durante a formação. Como não tinha condições de pagar uma faculdade, conseguiu ingressar no ensino superior por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni), iniciativa do governo federal. Mesmo depois da graduação, mantém um vínculo afetivo com a escola que considera uma referência para a comunidade.

O balconista Adriano Silva, de 20 anos, também sentiu nostalgia ao retornar à unidade, onde havia estudado até recentemente. Atualmente, ele cursa gestão pública no ensino superior e espera prestar concursos públicos. Entre as lembranças da época de estudante, destacou a quadra de esportes.

Voto representa esperança para os filhos

A camareira hospitalar Géssica Matos, de 33 anos, voltou à escola onde estudou durante toda a vida para participar da votação. Acompanhada do marido, o marceneiro Jeremias Azevedo, de 30 anos, ela levou o filho Oliver Darwin, de nove meses, e associou o voto à esperança de um futuro melhor para a criança.

Géssica trabalha no Hospital de Base, em Brasília, e precisa acordar antes das 4h para pegar o ônibus. Sua rotina inclui jornadas durante a madrugada em dias alternados. Apesar das dificuldades, ela afirma que retornar à escola para votar é uma experiência emocionante, porque o local guarda parte dos sonhos construídos ao longo da vida.

A história também se repete na trajetória de Lídia da Conceição, de 31 anos. Ex-aluna da unidade, ela trabalha atualmente como monitora de estudantes com neurodivergência e cursa pedagogia. Seu objetivo é se tornar professora na mesma escola onde estudou.

A diretora Zélia Vaz, de 58 anos, afirma que a instituição atende há três décadas alunos e famílias em diferentes situações de vulnerabilidade social. Para ela, acompanhar antigos estudantes retornando como adultos para votar representa uma recompensa pelo trabalho desenvolvido pela equipe escolar.

As histórias dos eleitores mostram como a escola ultrapassou a função de espaço de aprendizagem. De uma estrutura improvisada em uma antiga área de curral, a unidade se tornou parte da memória coletiva de Águas Lindas de Goiás, reunindo gerações em torno da educação, da participação política e da expectativa de novas oportunidades.

Com informações da Agência Brasil.

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